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Por Carmen Saraiva

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A grande aventura

Quinta-feira, 02.01.14

18 de dezembro de 2013.

 

05h30

Acordei estremunhada ao som do alarme do telefone. Nem queria acreditar que era o dia em que a Margarida iria nascer. Parecia tudo muito surreal. Não dormi bem, à conta dos nervos, mas quando o despertador tocou senti um misto de adrenalina e ansiedade que me fez saltar da cama como uma mola. Mais ou menos o que sentimos quando temos de nos levantar cedíssimo para apanhar um voo que nos leva a um destino de férias: a excitação supera sempre o cansaço. Preparei-me com calma, tomei duche, vesti-me. Estava em jejum desde as 23h30 da véspera, e por isso só o marido tomou o pequeno almoço. Nem tive direito a água. Fome não tinha, pela hora da madrugada, e também porque os nervos me embrulham sempre o estômago.

Tudo pronto, uma última olhadela à casa, para ver se estava tudo em ordem para três dias depois receber a nossa nova inquilina, e toca a enfiar tudo no carro. A mala dela, a minha, a do papá. A almofada de amamentação (que acabei por não conseguir usar no hospital), a máquina fotográfica, o computador, algumas garrafas de água. O ovinho, o chassis do carro. Parecia que íamos de viagem três semanas. Tentei controlar-me e fingir que não estava a sair de casa para ir parir um bebé, mas por dentro estava eufórica e cheia de medo. A cesariana tinha sido aconselhada pelo médico em quem deposito total confiança há anos, médico esse que iria fazer o parto e, como tal, apesar de a princípio ter ficado um pouco desiludida por não ser parto normal, acabei por me habituar à ideia. Sendo assim, achámos melhor marcar (outra coisa que sempre disse que não queria fazer) para antes do Natal, e foi assim que chegámos à data escolhida. Sabia que era algo mais controlado e menos violento e imprevisível do que todo o processo de um parto normal, mas mesmo assim estava aterrorizada com tudo o que me esperava. Não por ser desconhecido, porque estava completamente por dentro do que se iria passar, mas por detestar todo o ambiente de hospital. Isto iria ser, afinal de contas, uma cirurgia. Só queria que ela viesse bem de saúde, que tudo corresse bem e dentro do esperado, e que eu sofresse o menos possível, já agora.

 

07h55

Estacionámos à porta do Hospital dos Lusíadas. Entrei apressada, não sei se empurrada pela ansiedade ou se por achar que já poderíamos estar atrasados - o Dr. tinha pedido que estivessemos lá antes das 8h. Feita a inscrição, sou levada poucos minutos depois por uma enfermeira. Entrei no bloco de partos sem me despedir do marido, não fazia ideia de que iria estar algumas horas sem o ver - a ideia era estarmos sempre juntos até à hora H. O problema foi haver falta de quartos disponíveis aquela hora, o que fez com que fosse levada para a sala do recobro ainda antes do parto, e que tivesse de ficar lá, com ele cá fora, na sala de espera. Na sala do recobro, a enfermeira pediu-me que me despisse e que vestisse a bata do hospital - aquelas jeitosas que deixam o rabo ao léu - e me deitasse na cama. Nessa altura já eu estava que nem podia. Fiquei na cama do fundo, a mais longe da porta, e na parede ao lado estava um quadro com uma foto de uma cesariana. Lembro-me que olhei durante horas a fio para a foto (praticamente até entrar para a sala de partos, às 12h15), completamente petrificada com a visão do que se iria passar dentro de alguns instantes. Veio uma enfermeira fazer perguntas de rotina, veio outra para me colocar um cateter no pulso para o soro (que doeu como o raio!), e entretanto achei que devia perguntar pelo marido, que a esta altura do campeonato já devia achar que eu tinha parido e ninguém o tinha avisado. Acabaram por deixar que ele entrasse durante alguns minutos para me ver. Pareceu-me calmíssimo - aparentemente só eu me sentia perdida no meio daquele ambiente. Saiu pouco tempo depois e eu fiquei outra vez sozinha. Tive de pedir para me ajudarem a ir à casa de banho quatro vezes - com o Boby do soro atrás. Combinação de cabeça na bexiga + nervos dá nisso. Acabei por verbalizar a um dos enfermeiros que estava cheia de medo, o que levou a que a senhora da cama ao lado, atrás da cortina, me dissesse que não custava nada. Já ia na segunda e era canja. Falámos um pouco e ela quis tranquilizar-me, uma voz sem rosto, mas nada me conseguia acalmar. Praticamente nem ouvia nada do que me diziam, só pensava constantemente no mesmo. Vieram buscar as senhoras que estavam primeiro na "fila de espera", e eu ia ouvindo os bebés a chorar à medida que elas desapareciam da sala. "Olha, já nasceu", comentavam os enfermeiros. Quando percebi que era eu a próxima caiu-me tudo. "Vamos?", perguntou-me a enfermeira.

 

12h15

Entrei na sala de partos pelo próprio pé. Observei tudo o que podia para tentar registar algum pormenor marcante, mas só me lembro de pensar "que giro, tem uma janela para o exterior..." Deitei-me na marquesa e posicionei-me de lado conforme as instruções do anestesista. É agora, pensei. A partir daqui é que a coisa se complicou. A experiência da anestesia custou-me mais do que imaginava. É tudo muito estranho e demasiado assustador. O anestesista e a enfermeira que assistiu foram uns queridos, mas isso não impediu que os medos viessem ao de cima. Foram conversando comigo como se nada fosse, para me distrair, fingindo que estavamos sentados à mesa de um café. E eu fingia que ouvia o que me diziam e falava mecanicamente, com respostas tipo telegrama. Agora já não dava para desistir, raios. Senti a picada que anestesia a zona local, e à picada seguinte, mesmo com aviso prévio, tive uma espécie de choque elétrico, da ponta do pé até à cabeça, que me fez estremecer e me assustou imenso. Como se tivesse colocado os dedos na tomada e a corrente tivesse ido de uma ponta do corpo à outra. Senti mais picadas, mas já menos intensas. Os nervos tomaram conta de mim e comecei a hiperventilar. "Minha querida, vai começar a sentir a perna direita dormente", ouvi. Confere. Deixei de sentir a perna direita. A enfermeira deitou-me novamente de costas e a esta altura já teve de ser ela a dobrar-me os joelhos e a apoiar-me os pés na marquesa. "Experimente levantar o rabo." Nada. Já não sentia absolutamente nada da cintura para baixo. Uma sensação terrivelmente estranha. "Vai sentir-se ligeiramente enjoada daqui a dois minutos, é normal e passa depressa", disse o anestesista. Só exagerou no eufemismo, porque ligeiramente enjoada não foi bem a descrição apropriada. Senti um enjoo fortíssimo e pensei mesmo que ia vomitar. Uma má disposição tremenda. Disse-o em voz alta e a enfermeira tranquilizou-me, "já vai passar, minha querida, respire fundo". Inspirei e expirei com dficuldade, à procura de uma calma que não tinha. Sentia que estava a flutuar dentro de água quente, da cintura para baixo - não percebi se estava vestida ou despida, só sabia que me tocavam porque sentia estremecer as pernas. Só pensava que devia ser isto que sentiam as pessoas que ficavam paraplégicas. Que horror. O anestesista pressionou-me várias vezes as coxas com firmeza e confirmou que não sentia nada. Vi colocarem o campo que bloqueia a visão para a barriga, e pedirem para chamar o pai. "O pai certo!", disse o meu querido Dr. Amado, sempre bem disposto. Fixei os olhos no relógio para não perder de vista a hora do nascimento dela. Queria ter a certeza de que era a hora exata. Quando finalmente estava tudo pronto, entrou o marido, vestido a rigor, bata e touca verde na cabeça. Pronto, comecei a chorar. Acho que chorei durante toda a cesariana. Só me lembro de ele me perguntar, "Está a doer?", e eu responder "Não..." E de facto não estava. Só sentia abanões fortes na zona abdominal, mas absolutamente dor nenhuma. Chorei e senti-me completamente perdida nesses minutos em que durou tudo aquilo. Uma sensação indescritivelmente horrivel, não pela dor, mas por todo o "peso" que tem. Sentimo-nos totalmente nas mãos daqueles profissionais que estão naquele momento com a nossa vida e a vida da nossa bebé sob sua responsabilidade, e a falta de controlo da nossa parte é muito assustadora. Só podemos esperar que tudo corra pelo melhor.

 

12h34

De repente, ouvi "Vem aí a sua Margarida! Olhe, levante a cabeça!" Baixaram o campo mas não consegui ver nada, o marido teve de me ajudar a levantar a cabeça porque me sentia sem forças. Assim que a ergueram e a vi pela primeira vez, chorei ainda mais. Achei-a logo linda de morrer, fiquei perdidamente apaixonada. "3,520kg, às 12h34!" Ouvi alguém dizer " Parabéns, mamã!", mas não consegui responder no meio das lágrimas. "Esta mãe agora não está para ninguém", disse o Dr. Amado. Levaram-na para a marquesa do lado, limparam-na e vestiram-na, tive-a sempre debaixo de olho. Lembro-me de perguntar por que não chorava ela, e se estava tudo bem. "Está tudo bem! Não se preocupe! Estas mães querem é que eles chorem... Minha querida, ela vai chorar durante três anos... e é à noite!", brincou o meu médico. A partir daqui, foi tudo muito rápido. Coseram-me, colocaram-me numa cama e deitaram a menina ao meu lado. Ficámos as duas a namorar na sala de recobro. A minha irmã M. ainda conseguiu ir de fugida à sala, para me dar um beijinho, e depois passei por ela e pelo marido a caminho do quarto. Já eram cerca das 16h. Começava aí a grande aventura da recuperação da cesariana e dos cuidados com a minha bebé. Mas isso fica para outro post...

 

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por Carmen Saraiva


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