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Por Carmen Saraiva

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A alimentação nos primeiros 1000 dias

Terça-feira, 28.04.15

E na passada sexta-feira lá fui eu rumo à sede da Nestlé, em Linda-a-Velha, assistir ao workshop sobre a importância da alimentação nos primeiros 1000 dias de vida. E porquê 1000 dias? Porque é o período que vai desde o dia da conceção até cerca dos dois anos de idade da criança, período esse que, segundo os especialistas, é a nossa janela de oportunidade para "educar" nutricionalmente um bebé, ajudando-o a ser mais saudável e a fazer melhores escolhas alimentares no futuro. A alimentação durante estes 1000 dias terá efeitos na saúde do bebé a curto e a longo prazo, programando o seu desenvolvimento imunitário, metabólico e microbiológico - sem dúvida, os alicerces de um adulto saudável. O workshop contou com a participação de Dr.ª Helena Canário, nutricionista, Dr.ª Rute Neves, pediatra, e Dr. Eduardo Sá, psicólogo clínico.

 

Muito do que lá ouvi já me era familiar, mas alguns factos novos cairam que nem uma bomba. Para começar, a nossa guerra aberta ao consumo de açúcar na primeira infância, cada vez mais praticada pelos pais, que conhecem os seus efeitos nocivos e os poucos (ou nenhuns) benefícios, parece perder importância quando falamos do excesso do consumo de proteínas. Os bebés portugueses consomem duas vezes mais proteínas do que necessitam (a dose diária recomendada é no máximo 30g), e segundo estudos recentes este nutriente parece ser afinal o grande responsável pela obesidade, ao contrário dos bodes expiatórios mais comuns: o açúcar e as gorduras.

Poderia pensar-se que esta questão só se coloca quando se dá início à diversificação alimentar, mas o problema começa muito antes, com o desmame precoce de muitos bebés. Devido a complicações e stress logo na maternidade, ou por vezes dias mais tarde em casa, com a subida do leite, a um acompanhamento e orientação deficientes por parte de enfermeiros e médicos, pelo baixo peso do lactente, ou mesmo por livre decisão da mãe, muitos bebés iniciam precocemente o consumo de fórmulas infantis. Ora o que acontece é que por muito bem concebidas que estejam estas fórmulas hoje em dia, todas são derivadas do leite de vaca, altamente rico a nível proteico, e naturalmente o nível de proteínas é sobejamente mais elevado do que aquele que contém o leite materno, este sim totalmente adaptado ao consumo humano e às necessidades e crescimento do bebé. E porque não se diminui então a quantidade de proteínas nas fórmulas infantis, evitando este problema? Porque um bebé que fique privado de leite materno depende única e exclusivamente do leite adaptado para sobreviver, e terá que retirar dessa mesma fórmula todos os nutrientes essenciais para o seu crescimento, tendo que ser o mais completa possível. Se mantivessemos nas fórmulas apenas a quantidade ideal de proteína, estariam em falta outros nutrientes também essenciais. Assim, ao repormos os restantes componentes até à quantidade mínima necessária, acabamos por acrescentar mais teor proteico, acabando por fornecê-lo em excesso. Esta questão está a ser investigada pelos laboratórios das principais marcas, nomeadamente pela Nestlé, para que a Ciência permita num futuro próximo a produção de uma fórmula infantil que esteja o mais perto possível da composição do leite materno, sobretudo no que diz respeito à quantidade de proteína, embora estes sejam obviamente estudos caros e morosos. Neste momento o teor proteico adequado numa fórmula infantil é até 1,8g por cada 100kcal.

Fiquei assim a perceber a razão pela qual os bebés alimentados a leite adaptado crescem a uma velocidade muito maior do que os restantes... E por que razão se deve limitar o consumo de leite, quer seja uma fórmula infantil, quer mais tarde do leite de vaca, ao mínimo indispensável. A Margarida sempre consumiu o mínimo de leite possível, quer enquanto fez a amamentação não exclusiva, quer depois de deixar de beber leite materno. E ainda hoje bebe muito menos do que os recomendados 500ml diários, felizmente. Mas a realidade é que me assusta que ela consuma demasiada proteína à refeição. Não tenho nem nunca tive balança, e confesso que tenho dificuldade em orientar-me pela bitola do "tamanho da palma da mão da criança". A palma da mão quando se fala de uma bifana é o mesmo que a palma da mão quando falamos de um peito de frango? Enfim, são dúvidas e mais dúvidas, todos os dias! Faço normalmente como me disse a minha querida pediatra, em quem confio plenamente: "Quando não souberes bem se é proteína a mais, oferece sempre menos, é o mais seguro!" O maior perigo está, no entanto, na proteína animal - presente no leite (mesmo no artificial), na carne, no peixe e no ovo, e não na proteína vegetal - presente nas leguminosas e nos cereais (como por exemplo, nas papas). A Margarida não come papas desde os 8 meses e come pouquíssimas leguminosas, mas tinha plena confiança no peixinho e na carne, que afinal parecem ser os "inimigos silenciosos", pelo menos quando são em excesso...

 

Falou-se também no perigo dos "fundamentalismos". Para mim, ser fundamentalista ou radical, seja lá do que for, nunca será boa política. No entanto sinto que, mesmo sem querer, me preocupo demais com a ingestão de açúcar, ou seja, resolvo o problema ao não oferecer à Margarida alimentos que o contenham. "Se ela não souber o que é, também não tem pena de não comer, e tão cedo não pede", é o que penso. Já houve uma ou duas vezes, depois de ela fazer 12 meses (sim, porque antes então nem podia sequer conceber tal coisa) em que lhe ofereci umas migalhas de bolo, nomeadamente numa festa de aniversário e noutra ocasião especial. Fiquei logo com um sentimento de culpa que ia daqui à China, como se a rapariga tivesse comido uma fatia ou mesmo o bolo inteiro, e com medo das consequências futuras daquelas migalhas. Ora o que a Dr.ª Rute explicou é que nem 8 nem 80 - cortar radicalmente o açúcar da vida das crianças também não é benéfico para elas. E a razão é simples: o fruto proíbido será sempre o mais apetecido. Se formos demasiado intransigentes com os nossos filhos relativamente ao açúcar, um dia mais tarde ficarão obcecados por bolos, gomas e chupas, devorando de um trago tudo o que apanharem que contenha uma grama de açúcar. E isso não é bom. Portanto, o ideal é não fazer grande alarido nem drama com os doces - se é dia de festa, come um bocadinho, num dia normal, não. Claro que a regra será sempre evitar o consumo de açúcar e de sal, sobretudo durante os primeiros dois anos, mas tentar não viver em função disso. E assim se mantém a regra do bom senso, o ingrediente fundamental na educação de uma criança. Como em tudo na vida.

 

Outra questão muito interessante e assustadora foi saber que o que comemos hoje pode influenciar a saúde das gerações futuras. Ou seja, os (maus) genes que eventualmente passamos aos nossos filhos e netos podem ser modificados e melhorados se os nossos hábitos alimentares forem os mais saudáveis, bem como se a prática de exercício físico for implementada. Sempre pensei que a minha alimentação só teria influência na saúde da minha filha durante a gestação e amamentação, mas parece que estava redondamente enganada... Também tudo o que ingerimos antes da conceção, durante toda a nossa vida, tem influência na saúde das gerações que estão por vir. Escusado será dizer que senti logo uma culpa enorme por todas as pizzas que comi antes da Margarida ser sequer um projeto...

 

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Materiais e amostras generosamente fornecidas pela Nestlé (a Margarida agradece!)

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O livro publicado pela Nestlé no ano passado sobre a Alimentação Infantil durante os primeiros 1000 dias, e a mascote da Nestlé.

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