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Por Carmen Saraiva

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Outra vez a Maddie, ou "faziam melhor se gastassem as vossas libras"

Sexta-feira, 06.06.14

Pronto. Já me irritei. Acabei de ver as grandes reportagens sobre as escavações que estão há cinco dias a ser feitas no Algarve à procura do fantasma da Maddie pela Scotland Yard, esse prodígio de polícia. E tenho várias considerações sobre o assunto. Primeiro, que os parvinhos somos nós, por termos autorizado esta operação de marketing ridícula passados sete anos da desgraçada da miúda ter desaparecido. Não somos capazes de nos impor, temos sempre de nos rebaixar ao estrangeiro, e quanto mais nos (re)baixamos, mais nos vêem as cuecas. Não temos de facto força nenhuma para os mandar recambiados para a casa deles, que isto aqui não é a da Joana. Sobretudo depois de terem atribuído as culpas do insucesso do caso à polícia portuguesa e à investigação mal conduzida. Não temos dinheiro para mandar cantar um cego, mas para sustentar estas parvoíces já temos. Mas alguém acha que isto faz algum sentido? Virem passados sete anos re-escavar o que já foi mais que escavado, pôr cães a snifar o que já foi snifado, rebentar com tampas de esgotos e montar um verdadeiro aparato de carrinhas e tendas e retricted areas, à la CSI, como se ela ou quem a levou tivesse acabado de ali passar? Eh pá, é que se isto é que é ser inteligente e estar na vanguarda da investigação, então desculpem lá, meus amigos... mas os atrasados mentais são vocês, não é a PJ.

Depois a teoria brilhante, que não sei como é que nunca ninguém se lembrou antes. A Maddie acordou naquela noite quando o apartamento estava a ser assaltado, e em resultado disso foi levada e morta pelos meliantes, enterrada ali perto e tudo, simplesmente por medo de serem reconhecidos. Ah pois claro. É que uma criança de três anos é um perigo nisto de reconhecer assaltantes. É vê-la de dedinho espetado, do lado exterior do vidro espelhado, a denunciar aquele que acha mais parecido com o Noddy. Aliás, estão mesmo a pensar recorrer mais a estas mini testemunhas para resolver mistérios em todo o mundo. Para quem achava que a teoria de que os pais estariam envolvidos no assunto era descabida, então de facto esta faz muito mais sentido.

E falando nos pais, outro ponto muito interessante. Não, não faço ideia se estiveram ou não envolvidos na história. Já me pareceu que sim, mas neste momento penso que não. Mas uma coisa é certa: tenham ou não estado envolvidos diretamente no desaparecimento (e, sejamos realistas, na morte) da miúda, indiretamente estiveram DE CERTEZA. Afinal de contas, quem é que proporcionou a oportunidade de alguém a levar? Quem é que deixou num apartamento estranho, numa terra estranha, num país estranho, três crianças com menos de quatro anos completamente sozinhas e entregues à sua sorte, e se foi meter nos comes e bebes num restaurante a 500 metros de distância? Quando havia disponível um serviço de babysitting que não lhes apeteceu pagar, se calhar para gastar esse valor em mais duas ou três garrafas de vinho? Não me venham com conversas de que faziam turnos de 5 em 5 minutos para vigiar os miúdos todos, é que deve mesmo ter sido isso... e mesmo que tenha sido assim, já podia ser? Já não fazia mal? E a questão aqui é que isto já devia ser habitual, tanto em férias como em casa, tal foi a naturalidade com que o confessaram. Quem tem filhos sabe que não, não é normal deixar três (TRÊS!) crianças pequenas sozinhas para ir jantar fora. Não me interessa se foi a 500 metros, ou a 500 quilómetros. Eu nunca o faria, sobretudo sabendo que são crianças que já andavam perfeitamente, e como tal poderiam acordar, ver-se sozinhas no escuro num lugar estranho e ter medo, levantar-se da cama e cair, ou pegar fogo a alguma coisa, ou magoar-se, ou cortar-se, ou abrir a porta da rua e sair, enfim... Se fossem bebés de colo ainda podiamos pensar que o pior que poderia acontecer era chorarem até se esgatanharem por se verem sozinhos, mas neste caso as hipóteses seriam muitas mais, e todas mais graves. Se a Maddie foi privada da sua infância, adolescência e futuro enquanto adulta, se não pôde ter a companhia dos irmãos e dos amigos nem ser feliz, se não pôde voltar à escola nem à sua casa nem ao seu país, então é aos pais que o deve. Se hoje ela não existe, é por culpa deles. E em vez de processarem toda a gente que se atreve a falar publicamente sobre a Maddie, deviam era chicotear-se todos os dias e enfiar a cabeça dentro de um saco sempre que saíssem à rua. Ah, e by the way, quem é que deixou que estas criaturas continuassem livres e soltas em vez de terem sido responsabilizadas e processadas por negligência? Se isto fosse no Reino Unido, ela fosse cabeleireira, ele empregado de mesa e vivessem num bairro social, garanto que lhes tinham sido retiradas as outras duas crianças. Mas como são médicos e têm dinheiro e conhecem não sei quem no governo britânico, isso já não se colocou. Porque, "coitadinhos, já sofreram bastante com o desaparecimento da filha". Pois foi. Mas quem mais sofreu foi ela, e por ela não se fez justiça, ninguém a defendeu - ainda que isso não a trouxesse de volta. Toda a gente ficou solidária com os pais, que proporcionaram tudo isto de forma consciente, mas ninguém ficou solidário com ela e com os irmãos. Porque eles não mereciam que os pais os tivessem colocado naquela situação. Podiam tê-los deixado sozinhos e nada ter acontecido, e aí ótimo, excelente. Eram estúpidos e negligentes, mas safavam-se, ninguém tinha de saber e pronto. Mas sendo que aconteceu o que aconteceu, tinham de ter pago pelo erro gravíssimo que impediu que aquela criança continuasse a viver. Não queriam que ela desaparecesse, obviamente. Nunca imaginaram nada disto. Mas desapareceu, por responsabilidade flagrante dos pais, e como tal a culpa não devia ter morrido solteira. Se eu deixar sozinha a minha filha durante cinco minutos, numa situação que até considero segura e por algum acaso algo lhe acontecer por eu não estar presente, não é por ter sido "sem intenção", não é por sofrer por ela, não é por chorar baba e ranho que deixo de ser eu a responsável pelo sucedido. Tão simples quanto isso.

Tenho imensa pena da miúda, gostava imenso que aparecesse embora tenha 99 por cento de certeza que isso nunca irá acontecer, e nunca consigo deixar de pensar que se não fosse aquele ato irresponsável dos pais, ninguém hoje saberia quem era "Maddie", e ela ainda viveria feliz e contente.

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